Santa Senhorinha

Vários autores se dedicaram à análise das biografias escritas ao longo dos séculos sobre Santa Senhorinha. Foram precisamente esses estudos e comparações que serviram de base para também entendermos as semelhanças e divergências entre elas, assim como os autores e data de redação das mesmas.
No total, são feitas referências a quatro vidas1 de Santa Senhorinha que serviram de apoio para os autores que se debruçaram sobre a sua vida:

Vida 1
Manuscrito do século XII, que se encontrava na igreja de Santa Senhorinha de Basto, redigido certamente por um Monge do Mosteiro de São Miguel de Refojos, que ouviu relatos de testemunhas da visita do Arcebispo D. Paio Mendes (falecido em 1138) a Basto.

Vida 1.1
Manuscrito copiado nos fins do séc. XVI ou início do séc. XVII, do Mosteiro dos Eremitas Calçados de Santo Agostinho, mais conhecido por Colégio da Graça, em Coimbra.

Vida 1.2
«Vitae Beatae Senorinae Virginis», escrita em latim, é a primeira de duas narrações introduzidas por Alexandre Herculano no primeiro volume Scriptores, dos Portugaliae Monumenta Historica, em 18562.
Vida 2
Manuscrito que existia no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.

Vida 2.1
O historiador Manuel Faria e Sousa forneceu cópia ao3 primeiro editor: Tamaio Salazar, Martyrologium Hispanum, Tomo II, publicado em 1652.

Vida 2.2
Acta Sanctorum, Aprillis, Tomo III, dos Padres Bolandistas, de 1675, publicado em 1866.

Vida 2.3
«Alia Sanctae Senorinae Vitae ex Actis Sanctorumi>», escrita em latim, é a segunda de duas narrações introduzidas por Alexandre Herculano no primeiro volume Scriptores, dos Portugaliae Monumenta Historica, em 18564.
Vida 3
A Legenda, que se encontrava na igreja de Santa Senhorinha, escrita em latim por Frei Vasco Martins, a pedido de João Vasces, na altura Reitor da mesma, e que foi terminada no ano de César de 1441 (ano de Cristo de 1403, exatamente o ano que se encontra inscrito no túmulo de São Gervásio)5.

Vida 3.1
Esta vida foi utilizada, entre vários autores, por Jorge Cardoso, que dela faz alusão no Agiológio Lusitano, de 16576.
Vida 4
Uma vida escrita «em hum português antigo»9, que se encontrava na «igreja da Santa» e referida por: Frei António de Yepes, em 161510, Frei Luís dos Anjos, em 162611 e Frei Leão de São Tomás, em 1651, que indicou o seu autor como sendo «hum Monge nosso Conventual do nosso Mosteiro de São Miguel de Refoyos de Basto»12.

Vida 4.1
Integralmente preservada nas Memorias Resuscitadas da Antiga Guimarães em 1692, pelo Padre Torquato Peixoto de Azevedo 13.

 

Sobre a Vida 3...
Sobre esta vida 3 deixa-nos Diogo Barbosa Machado uma importante informação ao escrever sobre o seu autor, em Bibliotheca Lusitana: «O P. Francisco da Cruz Jesuita nas suas Miscellanias para a Bib. Lusit. [Biblioteca Lusitana] affirma ter visto esta Vida na Livraria do Eminentissimo Cardeal de Sousa que hoje possue o Illustrissimo e Excellentissimo Duque de Lafoens, e que posto ter o titulo em Latim he escrita em Portuguez, e acabada 7 Maii MIIIIX. onde consta ser mandada tresladar por Antonio Martins Abbade da Igreja de Sancta Senhorinha de Basto. Donde se colhe ser diferente esta Vida que vio o P. Cruz, daquela de que dá noticia Jorge Cardoso, afim no anno, como na pessoa que a mandou compor» . Além dos dois autores nos darem a conhecer as palavras iniciais e finais desta Legenda «nada mais temos hoje do referido texto, desaparecido»7.
Além dos dois autores nos darem a conhecer as palavras iniciais e finais desta Legenda «nada mais temos hoje do referido texto, desaparecido»8.

Sobre a Vida 4 que se encontrava na igreja de Basto...
Pedro Vilas Boas Tavares expõe uma importante referência que Francisco Xavier da Serra Craesbeeck faz ao falar da freguesia de Basto, sobre o extravio desta vida 4 que se encontrava na igreja: «Não há aqui mais de que possamos fazer menção, salvo de que nesta igreja andava hum livro desencadernado, muito antigo, en que andavão escritos os milagres desta sancta, en lingoa antigua, e passando por ali hum Dezembargador do Porto (que devia ser o Dezembargador Christovão Alam de Moraes [1632-1693]) o levou, dizendo que o mandaria encadernar e o remeteria para a dita igreja; mas não tornou. (…)»14.
Maria Helena da Rocha Pereira apresenta-nos uma detalhada análise sobre as semelhanças entre esta transcrição feita pelo Padre Torquato (vida 4.1) e a «Vitae Beatae Senorinae Virginis» (vida 1.2)15.
De acordo com a autora, nas duas obras, são «idênticos a vida e o elenco dos milagres até à morte da Bem-aventurada»16. Quanto à narração dos milagres póstumos são apresentados «sete pela mesma ordem; seguidamente, há omissão de um e colocação diversa de outro»17: é omitido da transcrição do Padre Torquato (vida 4.1) o milagre da mulher excessivamente fecunda e de sua filha estéril, e apresentado como seu tetra sobrinho o cavaleiro que ruma a Aguiar, personagem que não está identificada na «Vitae Beatae Senorinae Virginis» dos Portugaliae Monumenta Historica (vida 1.2).
Além disto, a transcrição do Padre Torquato «contém ainda mais nove milagres que não figuram em nenhum outro texto»18.
Independentemente da existência de algumas divergências quanto às opiniões dos biógrafos e investigadores no que respeita à ordem de redação das vidas de Senhorinha anteriormente referidas, fazem sentido as conclusões de Dom Xavier Monteiro: «O que é muito notável e significativo, é a coincidência perfeita, mesmo em coisas secundárias e acidentais, de todos estes textos», que na sua opinião «derivam originariamente da biografia da Santa escrita no século XII [(vida 1)], cujo conteúdo chegou até nós substancialmente inalterado»19.